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Acolher a Luz
Paulo F.Valéri0


Magos
O Natal de Jesus é uma história de oferta e repúdio, de acolhida e rejeição. A Escritura atesta que "muitas vezes e de muitos modos, Deus falou outrora aos nossos pais, pelos profetas". Mas também nos revela que já desde o princípio, o ser humano se fez surdo à voz de Deus, deu ouvidos a outras vozes, como a da serpente, símbolo da idolatria, da inveja assassina, da arrogância de querer ser como Deus.

Nos dias considerados os últimos, falou-nos por meio do Filho, resplendor de sua glória, expressão de seu ser, sustentador do universo, elevado acima dos anjos (segunda leitura).
Este Filho, que fora acolhido por seus pais, Maria e José, quando ele, a Luz, veio à luz, precisou ser envolto em faixas, deitado em uma manjedoura, porque não havia nenhum lugar para eles na hospedaria (cf. Lc 2, 7). Seja por questão de espaço físico, seja por motivos rituais (uma parturiente era considerada impura), o fato é que os esquemas sociais e religiosos das pessoas rejeitaram o maior dom que Deus lhes oferecia.

Tal rejeição está espelhada no Evangelho: "E a luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la. Veio um homem, enviado por Deus; seu nome era João". Nem mesmo o testemunho de quem viu a luz e experimentou sua força foi capaz de convencer os que preferiam as trevas.
Ora, a luz está intimamente ligada à vida: no Filho, a palavra do Pai, "estava a vida, e a vida era a luz dos homens". Rejeitar a luz é recusar a vida, é morrer. Nós fomos feitos para a vida, para a luz, só existimos sob o sol. Nossos olhos foram feitos para a luz, sem ela, eles são inúteis, se não se abrem à luz, ficam cegos.

A noite é somente o manto que o sol estende sobre nós para que repousemos, enquanto ele nos vigia e acalanta com a luz das estrelas, acordando-nos ao amanhecer, para dele nos alimentarmos. Não fomos feitos para viver num constante sono, às escuras.

Somos como as plantas, que precisam da luz para realizar a fotossíntese. O que seria da lua sem o sol? É ele que, tal qual artista, traça-lhe o tênue contorno de lua nova; depois vai pintando "São Jorge", "o dragão", até apresentá-la imensa e bela, cheia de luz, emoldurada pelo céu e pelo mar. Onde estaria o arco-íris sem os raios do sol? A vida não nasceria nem cresceria sem seu calor.

Felizmente, assim como aquela família de Nazaré, houve um grupo que se alegrou com o mensageiro que anunciava o amanhecer, que trazia a notícia de paz do início do reinado de Deus e do fim do exílio. Deus consolava seu povo, reconduzia-o à terra prometida, pondo fim ao eclipse que durara mais de 50 anos (primeira leitura).

Quem acolheu a luz, expondo-se à sua claridade, tornou-se filho da Luz, filho de Deus, não gerado pela vontade do homem, que se compraz no sono do pecado, nas trevas da omissão e no ócio da morte. Aquele percebeu em Jesus, por meio de quem nos vem a graça e a verdade, a revelação do Deus a quem ninguém jamais vira.

Hoje, como antigamente, embora Jesus continue sem encontrar abrigo nas estalagens e estruturas humanas, Deus nos convida a fazer parte daquele grupo que o acolhe, alegra-se com sua presença e nele possui a vida.

Extraído da Mesa da Palavra. Comentário litúrgico da Revista Família Cristã.
 
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