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Cheia de graça
Paulo F. Valério
Uma atmosfera de intenso júbilo parece dominar os dois primeiros capítulos do livro do Gênesis: curiosamente, nos versículos do assim chamado "primeiro" relato da criação, não se encontra nenhum advérbio de negação; o "segundo" relato, embora contenha até uma proibição, culmina na expressão de alegria da parte do homem diante da mulher que Deus lhe dera como companheira (cf. 2, 4-25).
O homem não levava vida ociosa no jardim, devia cultivá-lo, trabalhar, colher seus frutos. Precisava instaurar um convívio amigável com os animais, dando-lhes nomes e domesticando-os. Este trabalho não era uma canseira insuportável, mas um labor gratificante.
Enquanto o homem dorme, Deus trabalha nele; quando acorda, descobre na mulher aquilo que não encontra na natureza. A partir daí, o homem e a mulher buscarão a união sexual, formando uma só carne. Esta frase muito significativa conclui a narrativa: "O homem e sua mulher estavam nus, mas não se envergonhavam".
A nudez é símbolo da fragilidade humana, de sua caducidade e limites: ele veio do barro; mas também indica sua transparência e autenticidade. Portanto, o homem e a mulher trabalhavam, careciam um do outro, eram frágeis e limitados, mas não se envergonhavam desta nudez. Deus os fez assim, e sua graça lhes bastava.
À medida que obedeciam à voz de Deus, viviam sustentados por sua graça, não se importavam de ser fracos, bastava que Deus fosse forte. Contudo, quando dão ouvidos a outra voz, que até ousava contradizer a Deus, se deixam enganar. Rejeitam sua condição de criaturas, invejam o Criador, ficam surdos à Palavra criadora e mantenedora de Deus e, de certa forma, abandonados a si mesmos, findam por sentir o peso da própria nudez (primeira leitura).
O cenário do Evangelho é uma cidade, onde vive uma jovem prometida em casamento. Maria e José levam uma vida de Adão e Eva, cultivam não mais o jardim, mas a cidade de Deus, no trabalho manual e doméstico. Sentem fome e sede e atração um pelo outro: já estavam noivos e comprometidos, em breve se casariam, formando mais uma família judaica, com a bênção dos filhos e tudo o mais.
Eva contudo dera ouvidos à serpente, Maria só tinha ouvidos para Deus; cheia de graça, vivia graciosamente sua nudez humana na condição humilde de mulher, não queria ser como o Criador, mas apenas "serva do Senhor". Por isso, Deus, que a enchera de graça como ao primeiro casal, constatou que ela jamais deixou que nenhuma desgraça ocupasse seu coração. Assim, tendo-a enchido com sua graça desde o ventre materno, escolheu-a para ser a mãe daquele por meio de quem recebemos a graça e a verdade: Jesus Cristo (cf. Jo 1, 17).
A festa da Imaculada nos recorda a grandeza da figura de Maria, plena de graça num mundo que cultivava a desgraça. Igual à Mãe do Senhor nenhuma criatura humana o foi ou será. Nossa vocação, no entanto, é a graça: fomos feitos por graça, apesar dos nossos pecados, escolhidos para a santidade e para a filiação divina, agraciados por meio do Cristo, em quem recebemos o perdão, segundo a riqueza de sua graça (segunda leitura).
Extraído da Mesa da Palavra - Edições Paulinas
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